
Num lugar não muito distante, no reino animal, e no amanhecer de um bonito dia, uma galinha olhou para o céu e viu um pássaro voando livremente e cantando alegremente.
Desejou ser um pássaro. Começou a se identificar como um pássaro. Começou a achar que era um pássaro.
Tentou voar, não conseguiu — a natureza não lhe permitiu voar livremente como um pássaro, pois pássaro não era.
Tentou cantar, conseguiu apenas um simples cacarejar — a natureza não lhe permitiu cantar alegremente como um pássaro, pois pássaro não era.
Na sua não aceitação de não ser um pássaro, a galinha começou a querer redefinir tudo: os conceitos, a lógica, a biologia e até a natureza para, acaso e porventura, avistar-se como um pássaro.
Como forma de preencher o seu propósito identitário, chegou até mesmo a cacarejar que um pássaro é apenas um ser que voa; e que uma galinha MODERNA pode, sim, ser um pássaro, ainda que sem voar livremente, sem cantar alegremente, ciscando no chão e dormindo num poleiro.
Tivesse a galinha uma capacidade mínima de racionalizar, poderia compreender, sem muito esforço, que verdades biológicas ou dotações naturais não se submetem a construções sociais. Logo, uma galinha não pode ser, não é, e nunca será um pássaro.
Moral da estória: um lobo pode apresentar-se em pele de cordeiro; ainda assim será um Lobo. Cada ser apresenta sua essência, sua natureza única e imutável.

Mestre em Comércio Internacional e Políticas. para o Alternativa News
Leia outras Colunas de Yalu Tinoco
- “Um Ser que Gesta” (Por Yalu Tinoco)
- O Caráter na Política (Por Yalu Tinôco)
- Acordo UE-Mercosul e o Multilateralismo (Por Yalu Tinôco)
- A “América para os Americanos” (Por Yalu Tinôco)
- Auscultando o Brasil (Por Yalu Tinôco)
- A Cor da Consciência (Por Yalu Tinoco)